terça-feira, 3 de novembro de 2026

POR QUE NÃO ESCREVI MAIS UM LIVRO SOBRE TIROTEIOS E MORTES

 


POR QUE NÃO ESCREVI MAIS UM LIVRO SOBRE TIROTEIOS E MORTES

Ao escrever Papa Mike — A Realidade do Policial Militar, fiz uma escolha: em vez de eternizar os criminosos que enfrentei, decidi contar a história dos policiais que permanecem.

Por Sargento Lago

Recentemente, tive conhecimento de uma resenha sobre meu livro Papa Mike — A Realidade do Policial Militar, publicada na plataforma literária Skoob. O jornalista responsável pela avaliação considerou a obra ruim e questionou, entre outras coisas, o fato de eu ter dedicado relativamente poucas páginas às experiências que vivi na ROTA, unidade da Polícia Militar de São Paulo na qual servi durante minha carreira.

Respeito a opinião do jornalista. Quem escreve um livro e o coloca à disposição do público precisa estar preparado para receber elogios, críticas e interpretações que nem sempre correspondem às suas expectativas.

Mas aquela observação me ofereceu uma oportunidade interessante: explicar por que, depois de trinta anos na Polícia Militar, resolvi escrever um livro que não tivesse como protagonistas os criminosos que enfrentei.

A ROTA não foi toda a minha história

Servir na ROTA foi uma das experiências mais marcantes da minha carreira. Ali convivi com policiais extraordinários, enfrentei desafios que exigiram preparo físico e psicológico e aprendi lições que me acompanharam por todos os anos seguintes.

Tenho orgulho de ter vestido aquela farda.

Entretanto, minha trajetória profissional não começou nem terminou na ROTA. Fui policial no patrulhamento convencional, instrutor na formação de outros policiais, trabalhei em diferentes unidades, participei de atividades de comunicação social e vivi experiências que ultrapassaram os limites das ocorrências policiais.

Muitos companheiros que fizeram história na ROTA encontraram naquela unidade o ponto culminante de suas carreiras. É compreensível que desejem registrar os confrontos, as prisões e os episódios que marcaram suas vidas. Essas histórias têm valor e fazem parte da memória da instituição.

Mas eu queria contar outra história.

Não porque me faltassem ocorrências para narrar. Simplesmente porque não desejava escrever mais um livro sobre tiroteios, perseguições e mortes.

O que eu acrescentaria repetindo histórias que tantos outros policiais já haviam contado?

Ocorrências policiais são como refeições

Costumo comparar as ocorrências policiais às refeições que fazemos ao longo da vida.

Algumas são inesquecíveis. Outras, rotineiras. Há aquelas que nos deixam boas lembranças e outras que preferiríamos jamais ter experimentado.

Mas ninguém consegue viver apenas das lembranças do que comeu.

Com as ocorrências policiais acontece algo semelhante. Elas fazem parte da nossa trajetória, algumas deixam marcas profundas, mas não podem constituir toda a nossa identidade.

Um policial pode participar de centenas de operações, prender criminosos perigosos, enfrentar confrontos armados e sobreviver a situações extremas. Ainda assim, existe uma pessoa por trás daquela experiência profissional.

Alguém que volta para casa depois do serviço. Que tem família, sonhos, dificuldades financeiras, convicções, decepções e esperanças. Alguém que envelhece, adoece, perde companheiros, cria filhos e, muitas vezes, chega à aposentadoria sem saber como reorganizar a própria vida.

Essa realidade sempre me interessou.

O criminoso de uma ocorrência é substituído pelo criminoso da ocorrência seguinte. O policial, entretanto, permanece.

E foi sobre esse policial que decidi escrever.

Uma viagem para conhecer quem veste a mesma farda

Quando me aposentei da Polícia Militar de São Paulo, em 2009, depois de trinta anos de serviço, carregava comigo perguntas que a carreira não havia conseguido responder.

Queria compreender como viviam os policiais militares de outras regiões do Brasil. Saber se enfrentavam dificuldades semelhantes às nossas, como eram suas relações com os comandos, quais eram suas condições de trabalho e o que pensavam sobre a profissão.

Foi assim que nasceu o Projeto Polícias Militares do Brasil.

Durante 406 dias, percorri as 27 unidades da Federação, conhecendo quartéis, acompanhando atividades policiais, conversando com comandantes, oficiais e praças e registrando histórias que dificilmente encontrariam espaço no noticiário convencional.

Meu propósito não era produzir um levantamento estatístico nem realizar uma auditoria das corporações. Tampouco pretendia esgotar, em poucos dias de visita, a complexidade da segurança pública de cada estado.

Eu queria ouvir pessoas.

Queria descobrir o que havia de semelhante entre um policial que patrulhava as ruas de São Paulo e outro que enfrentava o calor do sertão nordestino. Queria conhecer as peculiaridades de cada região, as diferenças culturais, os problemas institucionais e, principalmente, os sentimentos de quem havia escolhido a mesma profissão que eu.

O resultado foi muito além do que imaginava.

Encontrei policiais orgulhosos de sua missão, outros desiludidos, alguns indignados com as condições de trabalho. Conheci profissionais extraordinários e também situações que expunham contradições e deficiências das próprias instituições.

Ouvi histórias de coragem, solidariedade, sofrimento, humor e superação.

Descobri que a realidade do policial militar brasileiro não cabia apenas nos boletins de ocorrência.

O que significa conhecer a realidade policial?

Uma das críticas feitas ao livro foi a de que minhas visitas aos estados teriam sido breves demais para permitir uma compreensão aprofundada da realidade local.

É uma observação que merece reflexão.

Evidentemente, alguns dias em determinada cidade não são suficientes para conhecer todos os problemas de uma corporação. Nunca tive essa pretensão.

Mas será que somente uma permanência prolongada permite registrar aspectos relevantes da vida de uma pessoa?

Uma entrevista pode revelar uma angústia guardada durante décadas. Uma conversa no alojamento pode mostrar dificuldades que não aparecem nos relatórios oficiais. Uma visita a uma unidade distante pode expor condições de trabalho desconhecidas por quem vive nas grandes capitais.

O jornalismo também se constrói por meio de encontros, observações, depoimentos e experiências.

Não se trata de confundir um recorte da realidade com sua totalidade. Trata-se de reconhecer que um recorte, quando apresentado com honestidade, também pode contribuir para compreendê-la.

Em Papa Mike, não prometi contar tudo sobre todas as polícias militares brasileiras. Propus apresentar perspectivas, experiências e reflexões sobre uma profissão que conheci por dentro e que fui redescobrir pelos olhos de outros policiais.

Nem tudo que acontece na polícia envolve criminosos

Outra observação do crítico diz respeito às passagens em que conto episódios da minha vida pessoal, da música e de outras atividades que desenvolvi ao longo da carreira.

Compreendo que essas histórias possam interessar mais a determinados leitores do que a outros.

Mas sua presença no livro não foi acidental.

Sempre procurei construir uma vida que não estivesse limitada às ocorrências policiais. A música, o jornalismo, a literatura, a fé e as relações humanas também fizeram parte da minha trajetória.

Por que essas experiências deveriam ser excluídas de um livro sobre a realidade do policial militar?

Ser policial é uma profissão, não a supressão da identidade de quem a exerce.

Talvez uma das maiores dificuldades enfrentadas pelos policiais seja justamente a expectativa de que sejam reconhecidos apenas pela função que desempenham.

Quando acertam, muitas vezes são considerados pessoas que apenas cumpriram sua obrigação. Quando erram, a condenação costuma alcançar toda a categoria.

Entre esses dois extremos existe uma multidão de homens e mulheres cujas histórias raramente são contadas.

Era esse universo que eu desejava alcançar.

Também escrevi sobre aquilo que envergonha a farda

Não pretendi apresentar uma visão idealizada da Polícia Militar.

Em Papa Mike, relatei minha primeira incursão numa favela, em 1982, quando testemunhei abordagens violentas praticadas por policiais mais experientes. Registrei meu desconforto diante daqueles procedimentos e minha reprovação às agressões.

Também contei a experiência de trabalhar numa companhia policial comprometida por graves desvios de conduta, onde enfrentei resistências e ameaças ao tentar combater irregularidades.

Essas passagens não foram incluídas para agradar ou desagradar a quem quer que fosse.

Fizeram parte da minha história.

Sempre acreditei que reconhecer os erros de policiais não significa desmerecer a instituição. Pelo contrário: quem respeita a farda deve ser o primeiro a desejar que ela não seja utilizada para proteger ilegalidades.

Da mesma forma, reconhecer os abusos cometidos por determinados profissionais não autoriza ignorar o trabalho digno daqueles que dedicam a vida à proteção da sociedade.

A realidade policial é complexa demais para caber numa divisão simplista entre heróis e vilões.

O silêncio que o crítico enxergou

Ao comentar as páginas dedicadas à minha passagem pela ROTA, o jornalista interpretou a concisão da narrativa como uma possível omissão.

Respeito sua interpretação, mas discordo dela.

O fato de não ter descrito minuciosamente os confrontos vividos naquela unidade não significa que estivesse escondendo acontecimentos.

Significa que escolhi não transformar essas experiências no centro do livro.

Ao recordar a ROTA, vieram-me à memória os companheiros, o treinamento, a disciplina, os riscos, o cansaço, a camaradagem, as pessoas que ajudamos e aquelas que não conseguimos salvar.

Vieram também as lembranças mais duras.

Por isso, ao final daquele trecho, escrevi:

“Cadáveres. Cadáveres. Cadáveres.”

Não pretendia criar um mistério.

Queria registrar, com a dureza que a memória me permitia, uma realidade que nenhum policial deveria considerar banal.

A morte, mesmo quando presente na rotina profissional, nunca deveria ser tratada como entretenimento.

E eu não precisava transformar cada cadáver em um capítulo para demonstrar que conhecia aquela realidade.

O livro que eu quis escrever

Talvez Papa Mike não seja o livro que determinados leitores esperavam encontrar.

Quem procura exclusivamente histórias de confrontos armados, operações espetaculares e prisões de criminosos famosos poderá sentir falta de relatos dessa natureza.

É uma expectativa legítima.

Mas não foi esse o livro que me propus a escrever.

Minha intenção era ampliar o olhar sobre o policial militar, apresentar experiências recolhidas em diferentes regiões do Brasil e refletir sobre a profissão a partir de quem a vive.

O livro nasceu de uma viagem que, antes de me levar a conhecer outras corporações, ajudou-me a compreender melhor a minha própria trajetória.

Não considero que tenha produzido uma obra definitiva sobre as polícias militares brasileiras. Nenhum livro isolado seria capaz disso.

Mas acredito ter registrado histórias e perspectivas que mereciam ser conhecidas.

Se essas páginas contribuírem para que alguém compreenda um pouco melhor a vida de quem veste uma farda, terão cumprido seu propósito.

O policial fica

Volto, então, à pergunta que motivou esta reflexão: por que não escrevi mais sobre minha passagem pela ROTA?

Porque minha história não terminava ali.

Porque havia um Brasil inteiro de policiais militares que eu ainda precisava conhecer.

Porque os confrontos armados, por mais dramáticos que sejam, representam apenas uma parte da existência de quem escolhe essa profissão.

E porque sempre me pareceu mais importante compreender o homem que continua vivendo depois que a ocorrência termina do que eternizar o criminoso que passou por ela.

O criminoso passa. A ocorrência termina. A viatura retorna ao patrulhamento.

Mas o policial fica.

E é sobre ele que escrevi Papa Mike.


Sargento Lago é jornalista, policial militar aposentado da PMESP, escritor e idealizador do Projeto Polícias Militares do Brasil. É autor de Papa Mike — A Realidade do Policial Militar, Fogo Amigo e Soldados da Fé.

Acompanhe os documentários e as histórias do projeto no YouTube: @SargentoLago.

O livro Papa Mike está disponível para aquisição pelo link AQUI

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