segunda-feira, 31 de maio de 2010

Policiais não pegam crianças

Na Flórida, uma mãe, aproveitando-se da amizade que mantinha com um policial, solicitou que ele simulasse a prisão do filho dela, para que o menino não voltasse a brincar com fósforos. Li essa notícia no blog Diário de um PM, que repercutiu a matéria publicada no site G1.


Não pude me furtar da obrigação de registrar a minha reflexão a respeito da infeliz iniciativa daquela mãe e do assentimento daquele profissional e de transmitir meu alerta aos meus companheiros de lida para os efeitos dessas brincadeiras que, além de traumáticas e provocarem medo nas crianças, são responsáveis pela solidificação da imagem repressiva do policial militar e pelo conseqüente distanciamento do cidadão durante toda uma vida.


Muitas vezes, vemos o esforço estrênuo das organizações na construção de uma imagem institucional sólida e respeitável a partir de programas bem elaborados de marketing, mas estes não encontram ressonância na sociedade, e os resultados ficam aquém das expectativas dos administradores. Sabe por quê? Não há uma preocupação com as atitudes individuais de seus profissionais; esquece-se de transferir o quinhão de responsabilidade a cada servidor pela boa ou má imagem da sua corporação.


Se no texto "Enxugando gelo" eu asseverei que a Polícia Militar paulista não corresponde às expectativas da modernidade, no que tange à valorização humana; sou obrigado a reconhecer que nós, os policiais, precisamos aquinhoar nossa responsabilidade na construção dessa boa imagem perante o público. E isso nos remete à preocupação com detalhes de nossa postura pública, que inclui o zelo com a exposição de nossas mais íntimas necessidades, pois, não raro, percebemos uma conduta autofágica de nossos companheiros e representantes, não somente na luta por privilégios de ascensão na carreira ou ocupação de função prestigiosa, mas também durante reivindicações, as quais soam como autênticas chantagens emocionais.


Com isso, dá-se publicidade às nossas mazelas, que, além de não contribuir para saná-las, possibilitam aos leigos o deleite da revanche, provida das mais injustas imposturas da razão e do bom senso. Assim, anos de resistência, de valores, de esforços para ser enxergado com justiça pelos beneficiários de nossas renúncias escoam pelos ralos da indiferença e do interesse.


As nossas queixas e reclamações devem ser direcionadas a quem compete resolver os problemas, e não em bate-papos informais com a sociedade, pois, desse modo, estimulamos a formação da opinião com base em pressupostos negativos e anulamos as qualidades das nossas matizes profissionais.


Essa convicção me faz lembrar de uma situação em que, certa vez, eu dirigia um carro bonito, por uma avenida da Zona Leste de São Paulo, quando, parado no trânsito, notei que um senhor pedinte vinha a minha direção. Reservei um trocado para entregar-lhe, porém, ao estender-me a mão para receber a doação, ele percebeu que eu estava fardado e recusou a dádiva imediatamente e disse-me: "Desculpa, o senhor também ganha pouco."


Imediatamente me vieram as imagens das reclamações que produzimos sobre salários a quem não é devido, as quais rendem até o despautério de um pedinte supor que também estamos na mesma condição de miserabilidade.


Não menos reprovável foi a forma que o clube dos oficiais editou sua campanha para sensibilizar o Governo do Estado a conceder aumento para a Corporação, colocando-nos em condição de miseráveis. Justo quem vive realidade melhor que a maioria dos Praças. Veja aqui. (Observe que foram infelizes TAMBÉM na escolha do locutor, que narra o texto em tom festivo).


Jogar nossa imagem para baixo não traz benefícios. Há que se mostrar todas as nossas qualidades e diferenciais que justificam merecermos um salário digno. O soldado mais recruta é um oficial de policia especializado em segurança pública. Foi aprovado intelecto, social, fisica e moralmente. Quais profissões exigem e aferem tantas qualificações? Para as respostas positivas, qual é o salário desses profissionais? Então, devemos afastar esse complexo de inferioridade das discussões em relação às questões que nos afligem e às dívidas sociais com que somos lesados por um governo cada vez mais oportunista e dissimulado, e posicionarmos com autoestima elevada, se quisermos bons resultados. Na prática, o modelo de reivindicação que tem sido usado não nos tem favorecido.


Não que a negociação deva ser menos arrojada, mas também não precisa ser violenta, apelativa ou insdisciplinada. A inteligência e a determinação cingem-se de enorme relevância nessa empreitada, assim como o apoio de diversos setores representativos da sociedade, que assumam a condição de parceiros não somente nos seus momentos de angústia, mas também se sintam prestigiados por permitirmos a contrapartida da participação de nossas vitórias. Portanto, nossas conquistas individuais não podem custar o nosso maior patrimônio: a nossa instituição, que começa na imagem que transmitimos à população ou como nos permitimos por ela sermos vistos.


Avalie comigo. Somos servidores públicos, prestamos um concurso, que, como sabemos, muitos da sociedade ansiaram, mas não satisfizeram a volição por falta de coragem ou de atributos, das virtudes exigidas pelo cargo. Outros tantos concorrem, entretanto não alcançam êxito. Outros, aprovados, não mostram aptidão durante o curso e ou são desligados ou desistem.


Enfrentamos o sol, a chuva, o frio. Quando a ocorrência vira a madrugada e estamos em local ermo, visita-nos a fome, e esquece-nos o alimento. Embora tenhamos problemas a resolver em nossas casas, saímos em proteção das pessoas que sequer conhecemos e, se for preciso, oferecemos a vida em sacrifício a elas. Sofremos pressões dos nossos superiores, também pressionados, que querem os resultados que os programas dos governos deveriam produzir. Essa é a nossa realidade. Ombros em que se depositam todas as responsabilidades; mãos às quais se nega o óbolo quando nos fazemos pedintes.


Quando esperamos o reconhecimento das pessoas que protegemos, não nos valorizam como queremos, pois sinalizamos a elas que nós mesmos não acreditamos na nossa instituição. Então, por qual motivo elas deveriam?


Como também disse no texto já citado: precisamos mudar a cultura viciada.


Sobre a mãe norteamericana que usou o policial para assustar o filhinho, vou prescrever uma lição de um sargento que se destacava por suas tiradas bem humoradas no meu Curso de Formação de Soldados, em 1981, quando, brincando, certa vez, nos chamou a atenção sobre a importância de investir numa boa imagem da corporação perante as crianças: "Quando você estiver de serviço e alguma mãe parar a sua frente e disser ao filho que pare de chorar, senão vai mandar o policial prendê-lo; você, sorrindo e carinhosamente, passe a mão sobre a cabeça da criança, busque acalmá-la e diga: fique tranquilo. Policiais não pegam crianças, só mamães”.

quarta-feira, 26 de maio de 2010

Dizendo o que não foi dito


Enxugando gelo

Sargento Lago (*)


As mudanças no comando de algumas unidades da PM paulista causaram enorme repercussão nos meios de comunicação. Entre elas, a que mereceu maior atenção foi a substituição do corregedor, empossado sob um clima messiânico, como solução para todos os problemas de conduta da Instituição. Na permuta, a autoridade substituída, a despeito de uma extensa folha de serviços prestados, em inúmeras atividades ao longo da carreira, saiu como incompetente, frouxa e desinteressada, submetida às humilhações que só quem sofreu um processo de fritura é capaz de reproduzir.


Lamentável que uma troca rotineira na Polícia Militar - visto que, quando ocorrem promoções são feitos ajustes, e os oficiais mais antigos são alocados em unidades de maior prestígio – sirva para proteger politicamente o candidato do PSDB dos efeitos de suas mazelas no gerenciamento da Segurança Pública em nosso Estado. Em verdade o teatro protagonizado pelo Secretário da Pasta esconde a real intenção do inflexível mandatário: jogar para debaixo do tapete uma equivocada gestão, marcada por arrogância e autopromoção, responsável pela explosão dos índices de violência em nossas pradarias. Mais entristecedor é que nenhum órgão de imprensa procura desmascarar esse tipo de postura; ao contrário, houve até cobertura midiática para visitas teatrais em Delegacias de Polícia.


Agora, pergunta-se: por que não melhorou o atendimento nas delegacias? Por que a solução para a diminuição das reclamações foi o fechamento das DP no período noturno e nos finais de semana?


A verdade precisa prosperar, e a população precisa despertar sua capacidade de indignar-se com essa política do faz de conta. Será que o povo paulista sabe que ele está mais desprotegido porque o Secretário transformou a Polícia Militar em pajem de presos? Será que sabe da diminuição da fiscalização aos policiais no turno de serviço em decorrência do desvio de sargentos para acompanhar escoltas?


É inaceitável macular-se a imagem de profissionais dedicados e de órgãos compromissados para eximir-se de culpa. A Corregedoria vai produzir os mesmos bons resultados de sempre, porque é um esteio da instituição e da população, à medida que se mantém inarredável do seu mister de fiscalizar o comportamento dos policiais militares, desprovida de corporativismo, de favorecimentos. Não haverá mudança no contexto que a pirotecnia estatal quis imprimir, principalmente porque o que provocará a transformação pretendida passa de largo das intenções dos politiqueiros: um elaborado programa de valorização profissional, que modifique uma cultura viciada.


Fala-se muito das condutas negativas de alguns policiais; e não me refiro a quem pratica crime de desvio de caráter, pois esses, acredito, nem a rigorosa seleção de ingresso consegue evitar, mas aos que sob estresse e, às vezes, por aparente motivo fútil brigam no trânsito, matam, usam drogas, atrasam para o trabalho, relacionam-se mal com os colegas. Que programa de recuperação há para eles? Depois vai exigir-se respeito à dignidade humana de quem sequer tem dignidade para proteger a cidadania. A polícia é grande e grandiosa e não pode negligenciar essa chaga que corrói suas entranhas.


Meu cunhado trabalha na Nestlé há 25 anos, desde que completou 16 anos. De tanto que exalta os feitos da empresa em relação ao tratamento dado aos seus empregados, toda vez que me deparo com a marca no supermercado e/ou nos comerciais de televisão, sinto uma satisfação inexplicável diante de seus produtos. Mas isso não foi conquistado do dia pra noite e, certamente, houve investimento na satisfação do principal cliente: os funcionários.


Domingo li no jornal Folha de S. Paulo que o Governo do Estado apresentou um programa que vai cuidar da saúde dos professores e minimizar os males gerados pela desfavorável condição de trabalho, ou seja, percebeu-se que se perde menos se fizer a prevenção. Tomara que não seja apenas promessa de ano eleitoral, pois os profissionais da educação, saúde e segurança formam a categoria mais carente de atenção e a mais esquecida.


As mudanças na Polícia Militar, nos últimos 30 anos, deram-se em razão das mesmas ocorridas na sociedade, mas não houve um enfoque na reparação dos problemas já apresentados no passado. As ações quase sempre foram para sanar emergências, preterindo a prevenção.


O investimento na qualidade do profissional inicia-se na seleção do candidato a ingresso na instituição, na formação, no treinamento, na fiscalização e na constante valorização humana, que cuida da saúde física e mental com salários, prêmios, medalhas etc. A organização empenha-se a realizar todas essas valências, numa seriedade não encontrada em qualquer instituição pública. Contudo, o resultado não é o esperado porque a valorização humana ainda está aquém do que se espera de uma entidade que se propõe a proteger vidas.


Há 15 ou 20 anos eu trabalhava num batalhão da Zona Oeste quando vieram umas psicólogas entrevistar os policiais de serviço. Uma das perguntas que me fizeram foi: "Se a PM fosse um animal, qual seria?" Respondi: Um elefante com cabeça de formiga.


Naquela época eu já considerava a nossa força superior às ações realizadas. Hoje eu não daria a mesma resposta, mas ainda percebo que nessa área de valorização humana estamos longe de alcançar o patamar desejado. Os efeitos são perversos. Vão desde a descompromisso com os ideais da Instituição até o medo de agir. Não será descompasso se me atrever a dizer que a desvalorização humana é o que permite homens valiosos aceitarem humilhações por conta de uma disciplina que bem aplicada representa sustentação, entretanto pode significar a mais dolorosa das omissões, aquela que entrega nossas cabeças nos patíbulos oportunistas para expiar os pecados dos vendilhões de nossa honra e moral.


Visitei a maioria das polícias militares do Brasil e, triste, constatei que algumas delas, com condição inferior a nossa, estão avançados nesse quesito, na mesma proporção inversa da sua capacidade em relação ao nosso Estado.


Ainda vou bater nessa tecla, pois é uma tese que defendi ao longo da minha carreira, mas que só terei o prazer de ver as mudanças no dia em que pararem de ficar enxugando gelo.


(*) Policial militar da reserva, cantor, compositor e jornalista diplomado.


www.sargentolago.blogspot.com

domingo, 23 de maio de 2010

"FOLHA" Troca seis por meia dúzia

CELSO LUNGARETTI

O JORNALISMO QUE ESTÁ
À DIREITA DO PODER (*)


Reportagens e editoriais desastrosos motivaram
reações como esta, fazendo a circulação da Folha
cair 5% em 2009, para 295 mil exemplares/dia.


A Folha de S. Paulo trocou seis por meia-dúzia, como era esperado. Mudou o formato da embalagem, a cor do rótulo e o tamanho do conta-gotas. Mas, o produto continua o mesmo: ora placebo, ora veneno.

Cadê um novo Paulo Francis, um novo Osvaldo Peralva, um novo Samuel Wainer, um novo Lourenço Diaféria, um novo Plínio Marcos? Continuam faltando os talentos superiores, talvez porque polêmicos demais para o domesticado produto da indústria cultural que a Folha é hoje.

Houve um tempo em que não ficava muito longe do Pasquim. Hoje está bem próxima da Veja.

Por que não chamar de volta o Alberto Dines, ainda melhor comentarista de imprensa x política do que todos que a Folha tem?

E qual a grande matéria de jornalismo investigativo da edição inaugural da nova reforma do jornal? A mais do mesmo sobre o crack?

No fundo, a única mudança que devolveria à Folha o esplendor de meados da década de 1970 seria a colocação de outro nome na capa, sob o logo do jornal.

Diretor de redação é posição importante demais para ser assumida por um filhinho de patrão. Acontece o que aconteceu:
  • primeiramente ele foi diminuindo os espaços das estrelas jornalísticas que a Folha tinha e detonando o núcleo de repórteres especiais;
  • depois introduziu um ridículo Manual de Redação, para impor rígido controle jornalístico-ideológico à equipe;
  • e, finalmente, vergou o jornal tão à direita que, desequilibrado, desabou, perdendo a credibilidade que nunca tivera antes de Claudio Abramo e foi dilapidando mês a mês sob a batuta de Boris Casoy (reacionário até a medula, mas profissional) e dele, Otavinho (também reaça e nem sequer profissional.
* Leia também o texto complementar O JORNALISMO QUE OUSAVA IR NA CONTRAMÃO DO PODER


sábado, 22 de maio de 2010

Defensores da transparência


Tenho andado num conflito muito grande entre continuar nesse complexo de *Poliana ou ser crítico contumaz da polícia.


Como profissional de segurança que acaba de completar os 30 anos de serviço e que mantém a paixão de um novato, escrevo versos quase que diários em louvor a instituição e a seus profissionais abnegados.


Como jornalista, travo uma luta interna para sufocar o desejo de crítica, ao acompanhar a maneira que as coisas são conduzidas na segurança e que, no esplendor dos meus 50 anos, vejo com clareza as manobras e interesses serem articulados sem a preservação dos sentimentos dos "culpados".


Abri aspas para os culpados porque não me refiro aos supostos autores de crimes, mas aos penalizados solidariamente.


Essa prática existe há anos, mas em período de eleições é vista com frequência, basta surgirem os motivos.


Penso que, antes de apresentar as "cabeças roladas", deveria vir a opinião pública e dizer o que será feito para corrigir o mal que gerou a retaliação.


Esse modelo antigo de gerir a coisa pública, que contorna com paliativo demagógico em troca da manutenção da pseudocredibilidade das pessoas, deve ser esquecido, pois hoje a comunicação voa em céu de brigadeiro e, com a mesma nitidez que observa as articulações, informa a quem tem interesse, transformando antigos incautos em novos protestantes e defensores da transparência.


*Poliana é uma personagem de livro que sempre vê o lado bom das coisas.


sexta-feira, 14 de maio de 2010

Quase tudo sobre Geraldo Vandré

CELSO LUNGARETTI

DE COMO UM HOMEM PERDEU

SEU RUMO E SEGUIU AO LÉU

"O que foi que fizeram com ele? Não sei
Só sei que esse trapo, esse homem foi um rei"
("Tributo a um Rei Esquecido", Benito Di Paula)

Eu era um adolescente começando a me interessar pela política quando uma música me atingiu em cheio: "Canção Nordestina", do Geraldo Vandré, com aquele seu grito lancinante ("...e essa dor no coração/ aaaaaaaAAAAAAAAIIII!!!!, quando é que vai acabar?") reverberando em todo o meu ser.

Foi meu primeiro ídolo. Acompanhei a consagração da "Disparada" no
Festival da Record de 1966, amaldiçoando o Jair Rodrigues por abrir um sorriso bocó no trecho mais dramático ("...porque gado a gente marca,/ tange, ferra, engorda e mata,/ mas com gente é diferente").

Depois, nos estertores d'
O Fino, o programa passou a ser conduzido, uma em cada quatro semanas, pelo Vandré (nas outras, se bem me lembro, os apresentadores eram Chico Buarque/Nara Leão, Elis Regina/Jair Rodrigues e Gilberto Gil/Caetano Veloso).

Num de seus programas, o Vandré declamou o "Poema da Disparada", sobre a modorrenta mansidão da boiada, até que um simples mosquito, picando um boi, provoca o estouro, e nada volta a ser como antes. Belíssimo.

Aí o Vandré brigou com a TV Record e saiu da emissora, alegando que um desses seus programas havia sido censurado pelos patrões, por temerem os milicos.

Veio o
Festival da Record de 1967 e Vandré, com sua "De Como Um Homem Perdeu o Seu Cavalo e Continuou Andando" ("Ventania"), virou alvo de críticas e maledicências ininterruptas nas emissoras da Rede Record. Diziam até que ele havia contratado uma turba para vaiar Roberto Carlos.

"Ventania" não era mesmo uma segunda "Disparada", mas, sem toda essa campanha adversa, certamente teria obtido classificação melhor do que o 10º lugar.

Aconteceu então aquele 1º de Maio esquisito, em 1968, quando o PCB garantiu ao governador Abreu Sodré que ele poderia discursar tranqüilamente na Praça da Sé.

O ingênuo acreditou e, mal tomou a palavra, recebeu uma nuvem de pedradas dos trabalhadores do ABC e de Osasco, organizados pela esquerda
autêntica.

Sodré correu para se refugiar na Catedral... e Vandré foi fotografado ajudando Sua Excelência a escafeder-se!

A foto saiu na capa da
Folha da Tarde e fez com que muito esquerdista virasse as costas ao Vandré.

No final de junho/68, os operários de Osasco tomaram pela primeira vez fábricas no Brasil (em plena ditadura!). A reação foi fulminante, com a ocupação militar da cidade.

Os estudantes, por sua vez, ocuparam a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da USP, na rua Maria Antônia, para mantê-la aberta durante as férias de julho, prestando apoio à greve de Osasco.

O Vandré apareceu lá numa noite em que estava marcada uma assembléia para tratar desse apoio estudantil à greve. Foi hostilizado pelos universitários. Lembro-me de uma fulaninha gritando sem parar: "traidor!", "traidor!".

Eu estava lá com companheiros secundaristas da Zona Leste, todos admiradores do Vandré. Então, nós nos apresentamos e fizemos o convite para vir conosco ao bar da esquina, oferecendo-lhe a oportunidade para retirar-se de lá com dignidade, e não como um cão escorraçado.

Bebemos, papeamos horas a fio, apareceu um violão e rolaram algumas músicas.

Lá pelas tantas, o Vandré mostrou uma letra rascunhada e cheia de correções, que ele escrevera numa daquelas folhas brancas de embrulhar
bengalas (pão). Era a "Caminhando", que tivemos o privilégio de conhecer ainda em gestação.

É importante notar que ele fez a "Caminhando" exatamente para responder aos esquerdistas que o estavam hostilizando. Quis lhes dizer que continuava acreditando nos mesmos valores, que nada havia mudado.

Perguntamos por que ele havia socorrido o Sodré. A resposta: "Nem sei. Estava tão bêbado que não me lembro de nada que aconteceu".

Na verdade havia amizade entre ambos, tanto que o Vandré, meses mais tarde, encontraria abrigo no Palácio dos Bandeirantes, onde o próprio Sodré o escondeu quando a repressão estava no seu encalço.

Mas, não ficava bem para um artista de esquerda admitir publicamente que mantinha
relações perigosas com um governador da Arena, partido de apoio à ditadura.

"HÁ SOLDADOS ARMADOS, AMADOS OU NÃO"

Naquele Festival Internacional da Canção da Rede Globo, "Caminhando" foi uma das cinco classificadas de São Paulo para a final nacional no Rio. O que chamou mais a atenção por aqui foi a não-classificação de "Questão de Ordem", do Gil, e o desabafo de Caetano Veloso, que acabou retirando sua "É Proibido Proibir" do festival em solidariedade ao amigo (depois de detonar o júri "simpático, mas incompetente" com um discurso célebre, que acabou sendo lançado em disco com o nome de "Ambiente de Festival").

No Rio, entretanto, o clima era outro. Numa manifestação de rua, a repressão acabara de submeter estudantes a terríveis indignidades (os soldados chegaram a urinar sobre os jovens rendidos e a bolinar as moças). Isto despertou indignação geralizada na cordialíssima cidade maravilhosa.

O III FIC aconteceu logo depois e os cariocas adotaram "Caminhando" como desagravo. Vandré teve muito mais torcida lá do que em SP. Quando ele reapresentou a música, já como 2ª colocada, os moradores de Copacabana abriram as janelas de seus apartamentos e colocaram a TV no volume máximo. Cantaram juntos, expressando toda sua raiva da ditadura.

Reencontrei Vandré por volta de 1980, quando eu estava colaborando com várias revistas de música. Propus-lhe uma entrevista, que ele não quis dar: "Não tenho disco nenhum para lançar, para que falar à imprensa?".

Acabamos indo (eu e minha companheira de então) ao apartamento do Vandré na rua Martins Fontes e papeando durante horas -- mas em
off, ou seja, com o compromisso de nada publicar.

Reparei que ele continuava lúcido, ao contrário das versões de que teria ficado
xarope por causa das torturas. Mas, perdera a concisão e clareza. Seus raciocínios faziam sentido, mas davam voltas e voltas até chegarem ao ponto. Para entender a lógica do que ele dizia, eu precisava ficar prestando enorme atenção. Era exaustivo.

O mais importante que ele disse: estaria na mira de organizações de extrema-direita, inconformadas com o gradual abrandamento do regime.

A censura finalmente liberara "Caminhando", que fazia sucesso na voz de Simone. Vandré explicou que tinha de passar-se por louco pois, se ele tentasse voltar ao estrelato junto com a música, seria assassinado.

Insistiu muito em que não se apresentaria no Brasil enquanto o País não oferecesse garantias legais aos seus cidadãos. Realmente, algum tempo depois, soube que ele marcara um show para uma cidade paraguaia fronteiriça com o Brasil. Quem foi lá vê-lo? Brasileiros, claro...

Quando estudava na ECA/USP, eu fiz um trabalho de teleteatro de meia hora baseado nos personagens e no clima da música "Das Terras de Benvirá" -- sobre uma comunidade de refugiados brasileiros decidindo se já era hora de voltar para a
patriamada ou não. Minha pequena contribuição àquele momento (1979) da anistia.

Conheço quase toda a obra do Vandré. E considero o LP francês, "Das Terras de Benvirá", uma pungente obra-prima.

"SEM TER NA CHEGADA QUE MORRER, AMADA"

Quanto à promiscuidade com milicos depois de sua volta do exílio, a canção composta em homenagem à FAB e as declarações negando ter sido torturado, a minha opinião é que ele não conseguiu suportar a realidade de que não se comportara heroicamente.

Em várias músicas (como "Terra Plana", "Despedida de Maria" e "Bonita"), o personagem central era um guerrilheiro. As canções, narradas sempre na primeira pessoa. Ou seja, saltava aos olhos tratar-se do papel que sonhava ele mesmo vir a representar na vida real.

Mas, claro, o Vandré não foi para a guerrilha nem parece ter passado pela prova de fogo nos porões da ditadura com o destemor desejado. Além disto, não aguentou viver muito tempo fora do Brasil e voltou com o rabo entre as pernas. Com certeza, negociou com os militares para poder desembarcar "sem ter na chegada/ que morrer, amada,/ ou de amor matar" ("Canção Primeira").


A minha impressão é que, nordestino e machista, ele não aguentou admitir que fora quebrado pela tortura e pelos rigores do exílio. Então, preferiu desconversar, embaralhar as cartas, descaracterizar-se como ícone da resistência. Enfim, um caso que só Freud conseguiria explicar (e esgotar).

De qualquer forma, aquele artista que tanto admiramos foi assassinado pelos déspotas, da mesma forma que Victor Jara e Garcia Lorca. Sobrou um homem sofredor, que merece nossa compreensão.

Jornalista e escritor, Celso
Lungarettimantém os blogues

domingo, 2 de maio de 2010

Crimes na polícia


Há muito a Polícia Militar paulista luta para reduzir o número de policiais que cometem crimes com palestras, vídeos, treinamentos e também com rigorosa fiscalização.


No que pese a constante e leviana acusação de corporativismo, vale lembrar que a instituição é severa na punição de seus profissionais. Se quiserem constatar a veracidade dessa informação descobrirão que - entre outras atuações para o cumprimento da lei - mesmo policiais já aposentados são recolhidos ao presídio por delitos cometidos durante o tempo do serviço ativo.


É tão clara essa imparcialidade que ainda antes do julgamento que poderá condenar os policiais suspeitos de espancar até a morte Eduardo Luis Pinheiro dos Santos, no dia 9 de abril, na Zona Norte da Capital, o comandante Geral da PM, Cel Camilo, já escreveu uma carta de próprio punho à sua mãe lamentando o fato.

Contudo, vale lembrar que, embora abominável, o número de policiais que cometem crime é pequeno, se considerarmos o efetivo atual em torno de 93 mil policiais para um número inferior a 300 internos no Presídio Militar Romão Gomes. Porém, isso não pode servir de consolo. O ideal é que não haja sequer um único caso.


Penso que a preocupação em zerar essas falhas de caráter deve ser constante e, para isso, além do que já tem sido feito, investir na saúde mental e na valorização do policial é fundamental.